Guidha Cappelo | EU… Margarida!
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EU… Margarida!

Sem-Título-7

27 out EU… Margarida!

Fotos_de_Guidha2

Deixe aflorar toda a sua doçura!!!  (Rosana Braga)

 

Às vezes, fico me perguntando porque é tão difícil ser transparente…

Costumamos acreditar que ser transparente é simplesmente ser sincero, não enganar os outros.

Mas ser transparente é muito mais do que isso.

É ter coragem de se expor, de ser frágil, de chorar, de falar do que a gente sente…

 

Quer conhecer a história de Margarida (Guidha)?

Seguem alguns textos de uma palestra no Colégio Sartre COC, em Salvador, sobre o tema, “Os horrores da guerra na África

QUARTA-FEIRA, 25 DE MARÇO DE 2009

VOU INDO POR AÍ…

por Guidha Cappelo

“Eu não vou falar para vocês de mais de um milhão de mortos durante uma guerra estúpida em Angola…
Não vou falar de milhares de MULHERES que enterraram seus maridos, seus filhos, porque não tiveram a mesma oportunidade que eu, de se refugiar em outro país… Também não vou falar das meninas negras que na época tinham a mesma idade que eu, e que foram estupradas, violentadas e mortas por soldados de Cuba e da União Soviética ou que eram oferecidas aos soldados angolanos em troca de um saco de feijão… Não!
Não vou falar das CRIANÇAS que tiveram como brinquedos, armas de madeira; como recreio, o estouro das minas escondidas nos quintais; como escola, a sombra das árvores onde alguém generoso, insistia em mostrar que havia uma esperança de liberdade, de vida, de alegria, de renovação e de AMOR!
Tão pouco falarei da dor dos MUTILADOS, mais de cem mil, que em busca de comida ou lenha, pisavam em alguma das mais de 11 milhões de minas enterradas em todo o solo angolano!

Vou falar de minha experiência direta!
Para isso peço que vocês fechem os olhos… respirem fundo e imaginem… Por algum motivo, com essa idade que estão agora, vocês têm de viajar sozinhos para os Estados Unidos, por exemplo, para passaram um mês…
Apenas 30 dias, senão as aulas começam e vai ser prejudicial para vocês! De repente você recebe um telegrama onde seus pais dizem que o Brasil entrou em guerra civil e por isso você deve aguardar até segunda ordem. Passa-se um mês e nada… você começa a se sentir sozinho… Dois meses e a solidão se transforma em agonia. As notícias só se agravam. Três meses e eu comecei a me questionar…
O que está acontecendo? E agora? Estou perdida!
Estava na casa de um parente de meu pai em Lisboa que eu não conhecia com apenas 15 anos e já perdendo sonhos… Quatro, cinco, seis meses e a cada dia que passava, minha angústia aumentava… As notícias só pioravam… Por onde andarão meus pais… meus irmãos… meus professores… meus amigos… minha melhor amiga… meu namorado? É! Eu tinha um namoradinho também…!

E cada vez mais isso foi ficando distante… fui perdendo a coragem, a alegria, a identidade, junto com meu sonho de ser uma jogadora de basquete e uma artista plástica…
Chorava de saudade, de medo , de dúvida. O que seria que Deus tinha em mente, para me fazer tamanha crueldade…
Até que depois de esperar 559 dias de angústia, de tristeza, de vazio, o telefone toca e ouço a voz da minha mãe! Fiquei MUDA! Ela estava no aeroporto de Lisboa! Meus irmãos tiveram que fugir pelo deserto para a África do Sul e meu pai atravessou o Atlântico e veio parar em Porto Seguro.

Depois de muito sofrimento nos campos de concentração sul-africanos, meus irmãos foram liberados para irem para Lisboa. E enfim, conseguimos reunir a família, primeiro na ilha da Madeira, na casa de minha avó e depois aqui vindo ao encontro de meu pai. Há um ano atrás, através de um site de busca de angolanos, consegui reencontrar a maioria de meus amigos, vizinhos, alguns professores e meu primeiro namorado!

Soube que muitas amigas minhas, inclusive a minha melhor amiga, por causa do sofrimento, se envolveram com drogas e bebidas… e esta acabou morrendo… Comigo, meu desespero fez com que eu me isolasse do mundo, evitando tomar conhecimento das notícias que vinham de lá, muitas vezes entrava em depressão, chegando até a tentar o suicídio, mas graças a Deus fui socorrida a tempo, o que não aconteceu com dois amigos meus.

Perdemos TUDO! Nossas casas, nossos bens, nossos amigos, nossa identidade, nossa raiz!
Ninguém sobrevive a uma guerra sem ser marcado a ferro e fogo… ninguém sai sem traumas… ninguém é mais inteiro!
Eu criei uma resistência para planejar o que quer que fosse! Apenas deixava a vida me levar.. Ainda vivo o dia de hoje, como se não houvesse o amanhã, como se fosse o primeiro, como se fosse o último também!
Inconscientemente me apavorava fazer planos para o futuro pois sabia que poderia ser tudo em vão… meu futuro era até amanhã… Criei também uma amnésia que eu chamo de Amnésia de defesa, não lembrar significava não sofrer. Mas agora estou recuperando, aos poucos minha história, minhas lembranças, através dos meus amigos… Só os pesadelos ainda me atormentam…
Às vezes acordo sobressaltada, com um sentimento angustiante… sem saber aonde estou… se em Angola, Portugal ou Brasil… Sempre falo que toda dor tem um lado bom, pelo menos de crescimento, amadurecimento, sabedoria…

Mas não me perguntem qual o lado bom de uma guerra…
Eu só vejo, dor, desespero, sangue, tristeza, doença, separação, sangue, perdas, violência, atraso, sangue, sofrimento, diáspora, fome, sangue, abuso de poder, destruição, lágrimas, mutilações, sangue, sangue, sangue, sangue, MORTE!
Não me perguntem quem sai ganhando com uma guerra…
Eu não consigo…
Eu não sei responder!

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TEXTO ESCRITO DURANTE A FUGA DA CIDADE DE MOÇÂMEDES – GUERRA DE ANGOLA – 1976 ( por um amigo)

CARTA A UM AMOR PERDIDO

Estamos em Janeiro de 1976, após vários meses de entendimentos, acordos e desacordos, entre os movimentos de libertação e liderados por homens de educação colonial e solidificada sob princípios católicos.
Nesta altura só existe desacordo e desentendimento… a “guerra civil” está no auge… mortes e sofrimento. O tempo aquece nessa parte da África junto ao deserto do Kalahari…
10 de Janeiro de 1976, nove horas e quarenta e cinco minutos, surge a notícia de se ter de abandonar a cidade devido à invasão por parte de um dos movimentos, e da previsão de grandes baixas por parte da população.
Rapidamente deixamos nossas casas e haveres, e embarcamos num navio (Silver Sky) que se encontra atracado no cais de Moçâmedes para que este nos leve por alguns dias, até algumas milhas afastadas da costa.
Para trás ficam alguns amigos, familiares… e inconscientemente muitos sonhos por concretizar. Mas havia a esperança de voltar…

Será que alguém pode imaginar uma multidão desorganizada procurando num curto espaço de tempo preparar sua saída, dando prioridade a algumas coisas (poucas) e preterindo outras (muitas) que à partida pareciam de pouca importância? Longe, muito longe de nossa linda cidade entre o mar e o deserto dentro de um navio muitos jovens aguardam pelo sinal de regresso, esperançados de voltar, de poder continuar a sonhar e construir seu futuro. Nossos pais desgastados de uma vida de trabalho, tudo deixam para trás e as lágrimas rolam por rostos enrugados pelos sacrifícios de uma vida.

… Infelizmente as notícias não são boas.

Teremos que definitivamente sair daquelas águas de “expectativa” partindo para outras de “incertezas” e de muita tristeza. Levantamos ferro e zarpamos para as terras do sul da África…
Aí nossos corações ficaram apertados, e aqueles jovens sonhadores com uma vida pela frente emudecem, ficam cabisbaixos, seus semblantes tornam-se pesados… O amadurecimento precoce de suas vidas tem início de uma forma abrupta… estúpida…

Amanhã atravessaremos algumas léguas de deserto de águas. É tão quente, como se o sol queimasse o nosso corpo. Às vezes os rapazes deliram, enxergam coisas no horizonte e falam como loucos. E é sozinho, à noite, que me pergunto se isto não é o inferno…
É quando me agarro à foto dela como única coisa que ainda me segura neste mundo e impede de enlouquecer.
Queria voltar para casa, por que já nem sei pelo quê estamos vivendo.
Consigo sentir o cheiro dela quando sonho que estamos juntos, sinto seu cabelo emaranhado no meu pescoço e o calor da sua respiração. Mas são tão rarefeitos estes momentos. Olhei para as últimas linhas do horizonte e sabia que não eram linhas de esperança, mas de despedida. De fim…
E sinto-me perdido, como se toda a minha vida estivesse à deriva.
Agora pergunto…?
Dr. Agostinho Neto, Dr. Jonas Savimbi, Dr. Olden Roberto

Por acaso sabem o desperdício de potencial humano que vocês homens letrados deitaram fora de nossa terra?
Podem nos dizer que quantidade de órfãos, viúvas e mutilados, provocaram com vossa ganância?

Têm a noção de quantas famílias se separaram , quantos sonhos destruíram e o mal que provocaram ao nosso querido país? … E a mim que chorei lágrimas amargas por quem a seu tempo não soube valorizar, trocando e desprezando meu grande amor e não tive a chance de desfazer meu erro… porque nos perdermos dentro dessa diáspora… nos perdemos dentro dessa insanidade que foi a guerra…

Sinto muita falta dela… dos olhos dela…

Estou vazio… virei um homem sem sonhos…
A vocês, meus líderes, vos confesso…
Nada tenho a perdoar… A história se encarregará de vos julgar.
Porque vocês são a história do meu país, vocês destruíram a linda história do nosso país, onde mora meu coração.
Hoje, analisando os já muitos cabelos brancos, fazendo uma pausa, olhando para trás, verifico que tu Senhor sempre esteve comigo… Que provações que me fizeste passar, foi para que eu pudesse crescer… E para que, nesta ponta final de nossas vidas, a tua vontade fosse soberana e se concretizasse o meu maior desejo…
Reencontrar a minha eterna “Namorada” e receber dela o perdão de ter soltado a sua mão, naquele dia fatídico…
Naquele dia 10 de janeiro de 76, o vento soprava mais forte, levando consigo a areia fina do meu deserto… e junto, os meus sonhos.

Uma areia que vai e não volta jamais.
É quando se fecham os olhos,
Se cerram os punhos,
É quando caiem as cortinas.

Quer conhecer a história de Margarida (Guidha)?

Seguem alguns textos de uma palestra no Colégio Sartre COC, em Salvador, sobre o tema, “Os horrores da guerra na África”

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MARGARIDA TAMBÉM É NOME DE FLOR

(Sobre os Horrores da Guerra na África)

Por Adriana Luz (Professora de Redação)

Hoje ganhei um presente. Na verdade, ganho presente todos os dias. Sou uma mulher de fé, acredito em tudo o que minha mãe me ensinou. E trago comigo, todas as crenças, as rezas, as tradições…
Às vezes, me pego querendo quebrar alguns ensinamentos. Talvez porque eles me prendam a coisas que me parecem questionáveis… Mas, mesmo questionando, há coisas que não há como perder. E, sinceramente? Nem quero que se percam de mim. E uma dessas coisas é exatamente a minha fé em Deus e minha devoção por Maria, a mãe de Jesus. Sim, sou devota de Nossa Senhora. Acho que uma devota meio “capenga”, porque não chego nem um milímetro à altura da devoção que minha mãe tem pela Santa. Mas me considero devota. E protegida por Ela. E já tive várias provas disso. Em outro momento, talvez eu até escreva algo a respeito.

Mas, no momento, só quero agradecer a Deus, à Maria, aos céus, pelo presente que ganhei hoje em sala de aula.
Um presente com nome de Margarida. Com nome de flor! E eu que gosto tanto de flores… Essa veio perfumar minha aula e deixar seu perfume impregnado nas mentes dos meus alunos… E minha!

Uma mulher. Uma mulher talvez como outra qualquer… Daquelas que sofreram por amor, que sofreram pela perda de entes queridos, pela perda de sua pátria… E pior, sem nenhuma explicação.

Uma mulher, talvez como qualquer outra… Que se casou, que teve uma filha…

Uma mulher, talvez como qualquer outra… Que vive apenas o dia de hoje… Não pensa no futuro, porque o futuro virá, de qualquer forma, talvez também sem explicação. E ela o viverá, porque aprendeu a viver assim, recebendo o que lhe vem… Como presente, ou como dor… Ela apenas vive…

Uma mulher, talvez como qualquer outra… Que poderia estar calada, ou vivendo a sorte que muitas mulheres de sua terra não tiveram…

Mas Guidha não é qualquer mulher… Ela é a tradução e a prova de que não só podemos transformar nossas dores em arte, tristezas em cores… mas especialmente transformar o mal que nos fizeram em atos concretos de solidariedade e compaixão…

E foi essa vida que ela veio mostrar hoje aos meus alunos em sala de aula. Uma aula que também poderia ser como outra qualquer, em que eu talvez estivesse no centro das atenções e meus alunos ali, tentando aprender comigo, enquanto eu, na verdade, é que aprendo todo os dias com eles…
Tanto isso é verdade que, hoje, aprendi com minha aluna Alice, (sua filha) do 1º ano 2, e com o grupo do qual ela fazia parte que, realmente, a verdadeira escola é aquela que traz à vida.

E qual seria a aula de hoje? Apresentações das equipes relacionando o livro “Equador” com o filme “O Jardineiro Fiel”. Antes de começar a aula, uma das meninas do grupo de Alice, toda preocupada, veio me dizer que estava com medo porque achava que o seu grupo iria fugir do tema. E me perguntou se a “palestra” poderia acontecer mesmo assim… Eu falei que sim, mesmo porque eu havia deixado livre a forma de apresentação…
E eis que me “aparece a margarida”. E isso não é metáfora para marchinha de carnaval. O nome da palestrante era Margarida mesmo (e ela se apresentou como Guidha). Uma mulher de trinta, quarenta, sei lá quantos anos (e isso não vem ao caso)…
Uma artista plástica que nasceu e viveu em Angola, os horrores da guerra e que, por causa dela (da guerra), teve de fugir de seu país. Uma mulher que, aos quinze anos, deixou pai, mãe, irmãos, amigos, namorado (Sim, gente, eu tinha namorado! – ela disse com os olhos cheio de lágrimas) e foi para Lisboa para passar um mês. Mas, com a guerra “estourada”, ficou 559 dias (contados um a um – como ela disse), numa cidade estranha, com gente estranha, sem notícia da família, dos amigos, sem explicação alguma… E que passados os mais de 500 dias, teve de se refugiar com a família em outro país. E assim, atravessou os mares clandestinamente…
E aqui “aportou”… Hoje, em sala, apareceu-nos assim, de forma tímida e sorriso doce… Em suas mãos, uma boneca antiga (a única coisa que ela conseguira salvar de sua infância em Angola)e algumas folhas, que ela segurava com as mãos trêmulas. Em seus lábios, uma voz calma, cheia de sensibilidade… E em seus olhos, lágrimas… E sobre o que ela falava? Guerras, destruição, abandono, abuso de poder, exploração, sangue, descaso…meninos sem pátria, sem ajuda, sem destino… Mas falava também sobre força de vontade, espírito de luta, garra, solidariedade, fraternidade… falava de sua gente, das mulheres lindas de seu país, do sorriso estampado nos lábios de seu povo…
Povo negro, tão diferente (de sua aparência branca) e tão igual, em sua essência “colorida”…

Mostrou-nos música, mostrou-nos fotos, mostrou-nos poesia… E nos fez viajar com ela até seu país de origem… Angola de sofrimentos, mas de saudade para essa mulher que, quase ao acaso, chegou até a Bahia…
Quando a palestra terminou, eu não tinha palavras… O grupo ainda queria “algo” para relacionar com o livro. E eu disse que não precisava. Mesmo assim, ainda colocaram um clipe (montado pelos integrantes da equipe), com músicas, imagens e palavras de sofrimento, mas também de esperança…

O clipe foi lindo. Mas não precisava. O grupo que pensou não ter relacionado nada com nada, simplesmente, deu-nos uma aula de vida. E tudo estava ali, completamente relacionado ao que eu pedira. Ou melhor, com a extrapolação necessária a quem tem asas, pensamentos e imaginação próprias.
Estou comovida com o trabalho da equipe. Com o trabalho de Guidha. E com o meu trabalho. Isso sim, pra mim, é Educação. E que bom que a cada dia aprendo com minha profissão, fazendo-me mais consciente de meu papel, aquele que eu tenho de “interpretar”, aquele que eu tenho de viver, e aquele que eu tenho de usar como forma de denúncia, explicação, carinho, entretenimento, ou homenagem.
E aqui fica a minha para essa artista plástica, mãe e cidadã do mundo, uma flor chamada Margarida.
Em suas próprias palavras: “O papel foi como uma trilha para descobertas, para voltas, reviravoltas, para idas e vindas, às vezes sem sentido… Foi trazendo as imagens que se perderam nas gargantas apertadas, nas esperas angustiantes, que descobri como tenho mãos amigas, abraços queridos, sorrisos de paz a me amparar…”

Obrigada, Guidha, pela flor que deu hoje a todos nós. Guardaremos com muito carinho…

(Adriana Luz – 28 de agosto de 2006)

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Amiga Adriana, a pedidos vou colocar aqui o texto que escrevi para essa “palestra”

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Adoro fotografia em preto e branco, mas a vida…

Ah a vida tem que ser bem colorida!

 

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS FEITAS EM ANGOLA

PELO FOTÓGRAFO FÁBIO MARCONI.

Por Guidha Cappelo

Isto foi o divisor em minha vida.

Ali eu vi, não o sangue, mas a poeira da guerra angolana, os destroços que a guerra deixou pra trás. Vi casas destruídas por balas e bombas, vi as cidades em cor-cinza, vi irmãos, muitos irmãos mutilados…

Eu não compreendia plenamente o que era aquilo. Passei estes anos todos, mais de 30, avessa a noticiários de minha terra. Não queria ver nem ouvir… Era como se eu quisesse ficar trancada numa redoma de vidro escuro e não lembrar sequer. Porque lembrar significava sofrer.

Quando fui visitar a exposição, fui acreditando que estariam ali expostas fotos das belezas de minha tão doce terra. Mas não, aquela exposição de fotos arrebentou meu coração, chegou ao limite suportável para mim, de horror… Ouvi naquele pequeno espaço, o som de bombardeiros, o estrondo de bombas, de minas, ouvi os gritos de socorro de tantas mulheres angolanas como eu, mas que não tiveram a mesma sorte de terem saído antes do ”pipocar” da guerra, senti naquele momento o cheiro de pólvora, de sangue, de lágrimas…

Sim! Meu rosto já se encharcava de lágrimas… Que dor! Senti-me irremediavelmente ferida, dilacerada, sangrando, senti uma cólica muito forte, como se aquela menina que ainda habitava em mim e não queria ter esse passado, estivesse sendo abortada… Ali, a frio, em pleno Shopping Center.

Chegaram a me entrevistar, mas meus olhos rasos d’água disseram: – Não tenho palavras…

Enquanto meus lábios balbuciavam algo meio sem nexo embrulhado em muita emoção.

É muito difícil viver com as lembranças do sofrimento. Mais difícil ainda é ver estampado em fotografias, fatias eternas dessa dor, pedaços do que nos restou! Porque quando estamos vivendo aquilo, as imagens se sucedem, vão se transpondo umas às outras, umas piores, outras nem tanto e uma ajuda a outra, mas nas fotografias não, elas ficam eternizadas, provando sua existência e provocando todas as suas dores e nuances, querendo nos forçar a ressuscitar esperanças…

Quantos sonhos sucumbiram naqueles estouros… Quantas vidas deixaram de acontecer… Quantas histórias nunca serão contadas… Quantas fotografias, retratos de tantas alegrias, viagens pelo deserto, festas, foram queimadas, perdidas, largadas pra trás em detrimento da vida. Quantos anos ainda vou ter que esperar pra conseguir tirar esse nó da garganta???

“Naquele dia 10 de janeiro de 75, o vento soprava mais forte,

levando consigo a areia fina do meu deserto…

e junto, os meus sonhos.

Uma areia que vai e não volta jamais.

É quando se fecham os olhos,

Se cerram os punhos…

É quando caiem as lágrimas

como quando despencam as cortinas.”

 

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Não é uma simples vestimenta que dispo hoje,

mas a própria epiderme que  arranco com minhas mãos.

(O profeta de Kahlil Gibran)

 

 

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